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Novelis quer deixar mercado livre e investir na auto-geração E-mail
Energia
Por Gazeta Mercantil   
22 de abril de 2008

A Novelis, multinacional líder mundial na produção de alumínio, pretende deixar o mercado livre brasileiro e tornar-se auto-sustentável em energia elétrica no País. Para isso, vai investir US$ 80 milhões na construção de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH, usinas com potência instalada de até 30 MW) e na ampliação de outra usina, ambas em Minas Gerais. A intenção é deixar de correr riscos de quebra de contrato, oscilação de preço e falta de liquidez, fatores responsáveis pela crise no mercado livre, conforme matéria publicada pela Gazeta Mercantil na semana passada.

"Queremos uma situação mais equilibrada", diz Roberto Rocha, diretor de operações da Novelis, ao lembrar das fortes oscilações no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) - como é chamado tecnicamente o valor da energia negociada no curto prazo -, quando, em janeiro deste ano, bateu no preço-teto: R$ 569,59 e resultou na paralisação de uma das linhas de alumínio primário da companhia, responsável por 20% da produção do insumo. "A linha está parada desde o dia 18 de janeiro. Tivemos que demitir 70 funcionários e 250 terceirizados", lamenta Rocha.

Os US$ 80 milhões de investimento serão destinados na ampliação da PCH de Brito, localizada em Ouro Preto, interior de Minas Gerais, e na construção da nova PCH, que ainda não teve seu local divulgado. "A partir do problema que tivemos e da paralisação forçada pela situação (de alta do preços), decidimos buscar a auto-suficiência", esclarece. E completa: "Com a entrada em operação das usinas, vamos ter 70 MWh a mais de fornecimento".

A empresa, que registrou faturamento de US$ 863 milhões em 2006 (último dado disponível), já produz 60% da energia que consome. O restante era comprado da Cemig, estatal mineira que também comercializa energia no mercado livre. Segundo Rocha, a carga de energia comprada no mercado estava vinculada a um contrato que previa que, caso o preço do insumo no mercado livre, balizado pelo PLD, passasse de R$ 120 por MWh, seria disparado um gatilho de correção. Com o PLD a R$ 569,59, por exemplo, a Novelis teria que pagar este valor pela energia comprada no mercado spot. Como a eletricidade representa cerca de 40% do custo de produção do alumínio, a empresa decidiu brecar parte da produção.

Mas mesmo com o anúncio dos investimentos, a Novelis retomou as negociações com a Cemig. "Temos que resolver a situação do curto prazo, por isso estamos mantendo negociações com a Cemig para fecharmos um contrato que ofereça condições de tarifas razoáveis", afirma Rocha. Ele diz que o ideal seria fechar o novo negócio com o preço do MWh estipulado em R$ 80. "A negociação não é fácil porque as visões são muito diferentes", conta o diretor. A Cemig, procurada pela Gazeta Mercantil, explicou que está com dificuldades de fornecimento em grandes quantidades, sobretudo para a região metropolitana mineira.

PLD tem forte redução

Por conta do bom volume de chuva registrado na semana passada, o PLD será negociado até esta sexta-feira a R$ 48,74 o MWh, o que representa uma queda de 30% no preço da semana passada (R$ 70,01). "Mesmo com os novos resultados do PLD, que demonstram preços razoáveis, é difícil confiar que o preço se manterá neste patamar", explica Rocha, da Novelis, ressaltando a importância e o interesse da empresa de investir na auto-geração.

Para a carga leve, o preço está no piso: R$15,47 o MWh. O PLD é calculado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), por determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A compra de energia no curto prazo está restrita ao mercado livre, sem ligação com uma única concessionária, setor hoje dominado pelas grandes empresas e shoppings centers e que já representa 25% do consumo total de eletricidade do País.

O mercado de curto prazo é movimentado somente pelos consumidores livres, que, quando excedem o seu volume de energia elétrica contratado, são obrigados a recorrer ao curto prazo. A necessidade do acerto de contas com a CCEE foi uma das maneiras encontradas pelo governo federal para evitar especulações em torno da commodity.

Inadimplência

O forte aumento no PLD registrado em janeiro acarretou em índices de inadimplência acima da média para a liquidação com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Tradicionalmente a inadimplência não passava de 1%, mas para o mês de janeiro a taxa ficou em 8%. E para o mês de fevereiro a taxa, divulgada na sexta-feira pela Câmara, ficou em 6,7% - mesmo com a data para liquidação postergada por nove dias -, novamente um patamar acima da média histórica..

De acordo com a CCEE, o prazo foi aumentado "para permitir a adoção de providências operacionais e técnicas nos sistemas de contabilização e liquidação que viabilizassem o cumprimento de medidas liminares recebidas". Dos 908 agentes de mercado, 628 são devedores e 280 credores. O montante total levado à liquidação foi de R$ 623 milhões e o valor liquidado de R$ 582 milhões.

(Roberta Scrivano)